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01.08.2005
  A legitimidade e o futuro do Congresso (Gazeta Mercantil)
 

 


BRASÍLIA - Às vésperas do depoimento do ex-ministro da Casa Civil e deputado federal José Dirceu (PT-SP) ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara, agendado para terça-feira, o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP) defende que todos os citados na CPI dos Correios, inclusive Dirceu, prestem esclarecimentos à comissão. No entanto, ele pondera que os integrantes da CPI têm ainda que conseguir um consenso para definir quando será o melhor momento para que isso ocorra.


Em entrevista exclusiva, Cardozo afirma que a CPI tem sido bem-sucedida em seus trabalhos, os quais devem ainda ser aprofundados. O deputado demonstra convicção de que o presidente Lula nada sabia do que está sendo revelado e que o Palácio do Planalto não será atingido por nenhum escândalo. "Acho que Lula será um candidato forte à reeleição, independentemente dessa crise. Porém é um cenário que se desenha hoje. Vamos verificar como é que o quadro se desenvolve a partir de agora", disse o deputado petista.

Cardozo revelou que teme que sejam feitos acordos para acobertamentos de parlamentares e disse que a opinião pública terá de cumprir seu papel de fiscalização para que isso não ocorra. A punição de todos os envolvidos, destacou o deputado petista, será a solução para que o Legislativo não perca a "pouca legitimidade" que tem junto à população.


O deputado que deve ser nomeado pelo presidente da comissão, senador Delcídio Amaral (PT-MS), como coordenador do grupo de parlamentares que conduzirá os depoimentos de menor audiência para obter o máximo de informações que possam auxiliar a CPI, já tem a sua rotina alterada pelo ritmo de trabalhos da comissão.

Gazeta Mercantil - Qual a avaliação que o senhor faz dos trabalhos da CPI dos Correios até agora?

José Eduardo Cardozo - Acho são trabalhos bem-sucedidos. Eles seguiram uma lógica de investigação coerente e estão rendendo resultados positivos. Acho que, às vezes, sai dos trilhos quando são transformados em verdadeiros palcos de debates político-eleitorais, o que atrapalha a investigação. Mas, no geral, a CPI seguiu um caminho seguro e tem feito um bom trabalho.

Gazeta Mercantil - Quais são os resultados já obtidos pela Comissão?

Cardozo - - Em primeiro lugar fica claro que existe um esquema de corrupção forte nos Correios. Não é só a questão de um funcionário "petequeiro", como diz o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). Há realmente um esquema de corrupção sério nos Correios, que circunda a influência de Jefferson. E situações que têm de ser explicadas em outras diretorias não postas com a influência dele. Há também indicadores objetivos que Marcos Valério não era efetivamente um empresário comum. Era um arrecadador de recursos eleitorais que parece ter iniciado suas atividades muito antes do atual governo. Claro que no atual governo ele pode ter crescido e ampliado seus tentáculos. Mas ele já operava antes do governo Lula.

Gazeta Mercantil - O destino desses recursos está claro para o senhor? Ou seja, eles foram utilizados para pagamento de despesas de campanhas eleitorais ou do mensalão?

Cardozo - - Não, sinceramente o assunto ainda não está claro. O Delúbio Soares diz que foram para campanhas eleitorais, mas essa é a afirmação dele. Nós teremos que investigar e provar ou não isso.

Gazeta Mercantil - Há perigo de perda de legitimidade do Legislativo se a crise se agravar ainda mais?

Cardozo - - Se não punirmos quem tem de ser punido, nós vamos perder a pouca legitimidade que ainda temos. Se cassarmos com critério e objetividade pessoas envolvidas, nós cresceremos aos olhos da população e mostraremos que estamos cumprindo nosso papel.

Gazeta Mercantil - A discussão sobre a reforma política já vinha ocorrendo e, agora, nesse momento de crise, algumas pessoas, inclusive parlamentares, a estão tratando como se fosse uma panacéia da crise. Um dos pontos da reforma é a eleição de candidatos por meio de listas definidas pelos próprios partidos. Se não forem cassados ou renunciarem aos mandatos, o risco de os partidos colocarem os políticos envolvidos nesse escândalo em posições-chave nas listas e, assim, ainda conseguirem a reeleição. Qual a sua avaliação sobre esse risco?

Cardozo - - Esse não seria um problema porque acredito que, se houver a cassação por improbidade, essas pessoas estarão afastadas porque não terão direitos políticos durante oito anos. Acho que o sistema de listas é melhor do que o de voto individual, como é hoje. Não tenho a menor dúvida disso. Porém, não sei se nessa crise isso começa a ser factível para as próximas eleições, infelizmente. Tenho defendido essa reforma de uma forma bastante contundente, mas tudo vai depender de como essa crise vai se desdobrar.

Gazeta Mercantil - As audiências da CPI estão sendo transmitidas ao vivo pelos canais fechados de televisão e a comissão tem virado um palco político. Como o sr. avalia a atuação dos parlamentares?


Cardozo - - Há boas e más atuações, como em tudo na vida. Há parlamentares que se esmeram, estudam e buscam obter informações dos depoentes. Mas, há outros que, infelizmente, preferem discursos políticos e utilizam a presença na CPI como se fosse um momento no plenário, o que me parece pouco recomendável. Há ainda aqueles que agridem depoentes e destratam os que estão fornecendo informações, o que me parece inaceitável. Todo e qualquer depoente precisa receber ou deve exigir o tratamento condigno à sua condição de ser humano. Infelizmente, alguns parlamentares têm cometido excessos.

Gazeta Mercantil - Na medida em que novas acusações forem atingindo outros partidos, inclusive da oposição, esses excessos podem diminuir?


Cardozo - - Às vezes, na política brasileira, quando as denúncias atingem várias forças políticas, há uma tendência à acomodação e ao acordo. Não podemos concordar com isso nesse caso. A sociedade tem que exigir que nós investiguemos tudo, coloquemos tudo em pratos limpos, tudo o que envolve o PT, o PSDB, além de outros partidos políticos. Se a sociedade estiver alerta, fiscalizando, o acordo não deverá acontecer.


Gazeta Mercantil - Há chance de acobertamento, o que no jargão popular seria a conhecida "pizza"?


Cardozo - - Eu temo isso. Por isso, é muito importante que a opinião pública fique fiscalizando e assuma uma postura mais ativa dos trabalhos.

Gazeta Mercantil - A deputada Juíza Denise Frossard (PPS-RJ) afirma que o presidente Lula, ao conceder aquela entrevista na França participou da construção da tese de que houve um crime eleitoral de não contabilização de recursos para campanhas, negando assim a existência do mensalão. O sr. concorda?

Cardozo - Discordo. O presidente falou muito vagamente que o PT fazia em eleições a mesma coisa que os outros partidos, não se referindo a caixa 2, empréstimos ou nada disso. E, mesmo que ele tivesse se referido a caixa 2, é notório que no Brasil, infelizmente, há muita utilização de caixa 2 em campanhas eleitorais. Aliás, está aí a prova: também fora do PT, em uma situação bastante complicada, a ação de Marcos Valério frente a outros partidos políticos em Minas Gerais. Acho que em nenhum momento o presidente da República entrou na crise com aquela entrevista.


Gazeta Mercantil - O sr. Acredita que o Palácio do Planalto possa ser atingido por algum escândalo?

Cardozo - Não creio. O presidente da República está totalmente fora. E a população tem percebido isso. Ele tem dado mostras de que quer uma investigação até as últimas conseqüências e tem chamado à responsabilidade todos nós do PT para que coloquemos tudo isso em pratos limpos.



Fernando Exman

 

Gazeta Mercantil
01/08/2005

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