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29.07.2005
  Cardozo descarta "acordão", quer financiamento público (Reuters)
 

 


BRASÍLIA, 29 de julho (Reuters) - Vista pelo governo como uma questão sistêmica, a atual crise política brasileira significa, ao mesmo tempo, problema e oportunidade: a chance de usar o momento crítico como trampolim a mudanças estruturais.

Esse é o diagnóstico do deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), parlamentar de destaque na CPI dos Correios que, em entrevista à Reuters, afirmou enxergar no financiamento público de campanha um duro golpe à corrupção no país.

Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Origem da crise
 "Há duas questões na estrutura do Estado brasileiro e do sistema eleitoral que se repetem de forma cíclica. Uma é o financiamento eleitoral: há historicamente uma relação de promiscuidade entre os captadores e doadores de recursos. Esta é a principal porta de entrada da corrupção no país.

Outro problema é o grande número de cargos de livre provimento na administração, que propicia a manutenção da cultura política na qual parlamentares, para dar apoio ao governo, indicam pessoas para esses cargos, comprometendo a independência da ação parlamentar e inoculando o vírus da corrupção dentro da máquina administrativa. Problemas desse tipo ocorrem em qualquer governo, independentemente do seu ideário e sua condição ética."

Solução
"Há outras portas para a corrupção, mas, no Brasil, o financiamento eleitoral é a principal. Uma solução radical para isso seria o financiamento público de campanha. É uma alternativa, embora radical, que tornaria mais transparentes os gastos. O Estado assumiria o ônus público do exercício democrático das eleições e permitiria maior controle das despesas de campanha (...)

Quem mantém relações negociais com o Estado muitas vezes só mantém essas relações se entrar no chamado esquema. Muitas vezes empresários participam disso porque não têm outra alternativa. Nessa lógica, políticos só podem se eleger se tiverem recursos, se entrarem nesse esquema. É um ciclo vicioso."

Público e privado
"Do ponto de vista legal, estamos aparelhados. O problema está na cultura política. Você pode fazer a lei que quiser, mas enquanto a sociedade brasileira não tiver clara a distinção entre o público e o privado, ela elegerá representantes que também não têm clara essa dimensão."

Medo de um "acordão"
"Quando você desnuda as causas geradoras de uma crise sistêmica --como é a do sistema eleitoral brasileiro-- este sistema fica abalado, não há meio termo. Meu maior temor pessoal é de que o sistema seja tão poderoso que, ao invés de ser desnudado, consiga desenvolver antídotos que impeçam a investigação total dos fatos.

Isso significa que forças políticas e empresariais podem se mover, inclusive junto a órgãos de imprensa, para buscar um grande acordo que deixe intacto o sistema, mesmo perdendo alguns anéis. É o que chamamos de operação-abafa, ou acordão (...)

Tenho a impressão de que, neste momento, não estamos próximos do chamado acordão, por uma série de fatores que felizmente estão impedindo um grande pacto de preservação. Há uma atuação bastante autônoma da Polícia Federal e bastante independente do Ministério Público. Não temos um 'engavetador-geral' da República, como tivemos em governos passados.
São fatores desenvolvidos por este governo, que destoam um pouco da situação tradicional do país.

Você também tem hoje uma verdadeira corrida entre órgãos de imprensa pela veiculação de notícias, uma competição no mercado jornalístico. Não sei se isso é controlável. Finalmente, as CPIs em geral são investigações públicas e trazem a grande vantagem de dar à população um nível muito grande de informação. Nenhum acordo consegue se sustentar se a opinião pública não estiver convencida de que aquilo é o correto."

Impeachment, não
"Até agora, essa idéia (de impeachment) está muito distante da realidade. Do ponto de vista fático, não há nada que aponte o envolvimento do presidente. Do ponto de vista político, não vejo em nenhuma das forças da oposição o desejo de ir para o impeachment, por fatores de natureza pragmática e institucional.

As oposições fazem isso não com o objetivo da concretização real do impeachment, mas para atingir a imagem do presidente, não na perspectiva de matá-lo, mas fazê-lo sangrar. As forças oposicionistas trabalham com a lógica de que é preferível disputar a eleição com um presidente fraco do que ir para um impeachment que permita o aparecimento de uma outra liderança que pudesse derrotá-las."

Elites x "barbudos socialistas"
"O presidente se sente muito mais à vontade, pelo seu perfil, quando fala para as massas em geral. Acho que, neste momento em que se tenta atingir a imagem dele, ele obviamente busca encontrar energia social suficiente para mostrar que ele tem força no país. Ou seja, mostra claramente o seguinte: se alguém deseja o impeachment, saiba que eu tenho apoio na sociedade. E de fato ele tem. Não creio pessoalmente em golpe, mas creio que tentam se aproveitar da situação para fazer um desgaste.

Acho que ele preferiu utilizar a expressão elites para rotular esses segmentos que, a partir de um senso de oportunidade, buscam vender para o país a idéia de que a corrupção nasceu com o PT, que antes não existia nada disso e que foram os barbudinhos socialistas que trouxeram a improbidade para o país."

Saída para a crise
"Sair, sairemos (da crise), sem dúvida, porque temos um sistema democrático consolidado. Eu não sinto que, por maior radicalidade que possa ter essa crise, tenhamos qualquer comprometimento institucional.

O que eu acho é que podemos sair de duas maneiras diferentes. Ou saímos com algumas punições dentro de um acordão para que tudo permaneça como está, ou saímos com punições e com a perspectiva de que as coisas têm de mudar do ponto de vista estrutural e sistêmico. Se for essa segunda saída, eu diria que essa crise, apesar de todas as angústias e dores, terá vindo para o bem."


Por Natuza Nery e Ricardo Amaral

Agência Reuters
29/07/2005 - 19h52

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