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12.11.2006
  "Caixa 2 não acabou e a nova Câmara será pior" (Jornal da Cidade)
 

Imaginar que o caixa 2 acabou nestas eleições é uma piada. O nível da próxima Câmara será pior que o atual. Brasília é uma Versalhes. Candidatos a deputado por São Paulo pagaram vereadores durante a campanha. Quem faz estas afirmações é o deputado federal reeleito José Eduardo Cardozo (PT-SP), em entrevista à Associação Paulista de Jornais (APJ).
Professor de direito, relator da reforma do Judiciário, ele foi o 6.º mais votado entre os 14 deputados eleitos pelo PT. Fez sua carreira política em São Paulo, onde ganhou destaque presidindo a CPI dos Fiscais, durante a gestão do prefeito Celso Pitta. Terceiro mais votado em 2002, atrás apenas de Enéas (Prona) e José Dirceu (PT), ele avalia a diminuição dos seus votos e o cenário político. Confira:

APJ - O senhor é considerado um deputado formador de opinião, apareceu nos dois anos na lista dos mais influentes na pesquisa feita pelo Diap. Mas baixou de 300 mil votos para 130 mil. Por quê?

José Eduardo Cardozo - A mudança de regras eleitorais atingiu todos os candidatos formadores de opinião, que não têm uma base territorial ou corporativa. Ele tem um voto difuso, que vem pela sua atuação, a avaliação que o eleitor faz do seu mandato, afinidade com suas idéias, etc. Um dos problemas é como atingi-lo. Na medida em que você não tem visual de rua, ou outras situações de comunicação mais global, e só a televisão como alternativa , aquele com espaço na televisão pode ter êxito. Sem espaço ou com espaço reduzido, as pessoas não sabem que ele é candidato.

APJ - Não houve escanteamento dentro do próprio partido?

Cardozo  - Falo de uma situação geral. No caso de Paulo Maluf, todo mundo sabia que ele era candidato. No caso do PT, todos os candidatos tiveram tempo igual, tanto aqueles com o meu perfil como os que têm base territorial: duas inserções de 15 segundos. Outros candidatos de opinião não foram eleitos, como Delfim Netto (PMDB-SP). O Michel Temer (PMDB) foi por pouco. No PT a situação foi agravada, pois se em 2002 tivemos a “onda vermelha”, tivemos agora o refluxo vermelho: não vote em candidatos do PT. Isso atingiu a classe média paulista, especialmente nas vésperas das eleições, por conta do episódio do dossiê. Em São Paulo, candidaturas como as de Luiz Eduardo Greenhalg e Roberto Gouveia não sobreviveram. No Rio, Biscaia. Em Minas, Paulo Delgado. Em Brasília, Sigmaringa Seixas. Esse perfil eleitoral do PT foi arrebentado. Entrou quem tem base corporativa ou territorial, principalmente quem tem vinculação mais orgânica com máquinas políticas.

APJ - Se a campanha estava tão restrita assim, os deputados gastaram em quê?

Cardozo  - As campanhas não foram mais baratas. O que se viu foi uma mudança: o dinheiro que ia para outdoor, banner, foi para a contratação de pessoas, de cabos eleitorais. Vi situações absurdas. Não que não contratassem antes pessoas para fazer panfletagem. Mas a dimensão da contratação de lideranças foi uma coisa assustadora. Houve contratação, às vezes, até de parlamentares.

APJ - Como assim?

Cardozo  - Eu pergunto a um vereador: você faz campanha para mim? Ele responde: faço, mas quanto você me dá de “estrutura”? Ora, o que significa estrutura? Quanto ele vai pagar para as pessoas dele. Até que ponto essas pessoas não vão pegar dinheiro para si próprias? Ou seja, você acaba pagando o apoio. Isso já existia e nesta eleição foi muito mais agravado. Eu quero fazer campanha num bairro de São Paulo e de repente entra alguém com mais recursos, fazendo dobradinha.

APJ - Antônio Pallocci?

Cardozo  - Não vou citar nomes. Uma coisa muito curiosa é que foi a eleição onde tive maior arrecadação. Não imaginava ultrapassar a casa de R$ 1 milhão.

APJ - Foram 20 campanhas milionárias entre os 70 paulistas eleitos...

Cardozo  - Isso os que declararam. Imaginar que o caixa 2 desapareceu nesta eleição é uma piada. Alguns são mais honestos do que outros, e suas campanhas são um pouco mais altas. Ou receberam muito mais. O que me surpreende é, tendo arrecadado, não ter competitividade com essas campanhas onde as pessoas mudavam seus apoios. Os recursos nesta campanha foram para o lado invisível, para o subterrâneo. Tudo isso ocorre de modo suprapartidário.

APJ - Quais as conseqüências?

Cardozo - O debate parlamentar perdeu quadros políticos de fundamental importância, em todos os lados. Em termos de composição, a legislatura é pior. O que difere é que a crise levou um foco de luz maior à Câmara, e a pressão da sociedade pode determinar posturas diferentes. Se não houver um acompanhamento social mais rígido, esta legislatura pode gerar situações mais constrangedoras do que as que vivemos na chamada “pior legislatura da história”. Temo que as coisas possam se repetir. Perdemos deputados de opinião, não foi feita uma reforma política, há as situações que geraram casos como os dos sanguessugas, mensalão. A causa geradora está mantida, e o universo que vai atuar nela é pior.

APJ - Essa tendência a um centro na Câmara não gera um certo artificialismo no debate capitaneado por petistas e tucanos?

Cardozo  - Sim. O Brasil não tem um histórico de partidos políticos, com programa, idelogia, mas uma porção de legendas. As pessoas em geral personalizam demais a política brasileira, e isso é um círculo vicioso. Isso só se quebra num outro sistema político-eleitoral. As correntes são o malufismo, o carlismo...

APJ - Foi o lulismo que elegeu o Lula?

Cardozo - Eu vi muita gente votando no Lula que não pode ver o PT na frente. O nosso sistema fortalece essa dimensão pessoal, não a formação de partidos. Nossas eleições são profundamente despolitizadas, especialmente no voto proporcional.

APJ - O que deve mudar?

Cardozo  - A agenda eleitoral, com eleições unificadas. Hoje você sai de uma eleição e cai em outra. Isso impossibilita a formação de pactos políticos sadios. Na medida em que você tem de derrotar um adversário, o pacto político só vai ser feito se o outro for derrotado. Isso não existe, pois ninguém é trouxa. E retira a possibilidade de pactos políticos para o desenvolvimento do País, de consensos. PT e PSDB são as duas principais forças em antagonismo há muito tempo. Eu vislumbro muito mais pontos de identidade entre ambos em certos momentos. No entanto é impossível a formação de pactos políticos por uma questão eleitoral. As equipes de governo dos Estados e do governo já estão montadas com vistas à eleição de 2008.

APJ - Suas convicções anteriores a 2003 sobre o processo político mudaram?

Cardozo  - Não imaginava que a reforma política fosse tão necessária. Ela é que pode dar estabilidade ao cenário político, combater a corrupção, fazer mudanças profundas na cultura política brasileira, a longo prazo. É a reforma das reformas. Aprofundei também minha convicção sobre financiamento público de campanhas e parlamentarismo. Tinha muita dúvida sobre o voto distrital misto, hoje acho uma alternativa.

APJ - Que tipo de relação se observa prioritariamente na Câmara? A velha cordialidade?

Cardozo  - A sedução. Brasília é o centro de poder do País, e distante dos grandes centros. É uma ilha, uma Versalhes perto de Paris. A possibilidade aqui de você perder a noção, achar que o mundo se limita a Versalhes, é muito grande. Você perde as referências. O mundo vira Versalhes. Se não tem pão, por que não comem brioches? Aqui é isso. Você perde a dimensão, está no teu mundo, na tua ilha. O político só recebe pressão quando está na sua base. E ele pode não ir até lá.

Alceu Luís Castilho/Correspondente da APJ em Brasília

Jornal da Cidade de Bauru - Versão online
12/11/2006

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