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01.08.2007
  José Eduardo Cardozo: 'não acho difícil fazer política sendo honesto' (Diário da Serra)
 

Em entrevista ao jornal "Diário da Serra", de Botucatu, José Eduardo Cardozo fala sobre política, honestidade e ética. Também comenta a importância da Reforma Política para a sociedade e fala sobre discussões das quais vem tomando parte em Brasília.
 
O deputado federal José Eduardo Cardozo (PT), tido como uma das reservas morais do Congresso Nacional, em entrevista exclusiva ao Diário, diz que a grande demanda da política brasileira hoje na questão da ética é uma reforma em suas estruturas, para limitar o espaço para as irregularidades, de forma que a corrupção seja um efeito nocivo mais facilmente isolado e combatido.

Cardozo defende o financiamento público de campanhas eleitorais, voto distrital misto e a adoção da cláusula de barreira. O parlamentar faz elogios ao trabalho do prefeio Mário Ielo (PT), em Botucatu e anuncia a pretensão de candidatar-se a prefeito de São Paulo, na eleição de 2008.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

DIÁRIO DA SERRA: É difícil ser um político honesto no Brasil?

JOSÉ EDUARDO CARDOZO: A concepção atual de uma expressiva parcela da sociedade, de que a política é atividade marcada por irregularidades, deriva de denúncias e escândalos que volta e meia e desde há muito tempo surgem no noticiário. É uma demanda que vem sendo atendida de forma efetiva pela Polícia Federal e outros órgãos com a responsabilidade de coibir comportamentos desse tipo. Não acredito que seja difícil fazer parte da política sendo uma pessoa honesta e que não existam condições de atuação para quem se pauta pela ética. A grande demanda da política brasileira hoje na questão da ética é uma reforma em suas estruturas, para limitar o espaço para as irregularidades, de forma que a corrupção seja um efeito nocivo mais facilmente isolado e combatido. Uma reforma que passe por financiamento público de campanhas eleitorais, voto distrital misto, a cláusula de barreira, entre outras iniciativas.

DS: Uma pesquisa feita em seu site aponta que 85% das pessoas que o acessam gostariam de vê-lo na prefeitura de São Paulo. O sr. já decidiu se pretende candidatar-se ao cargo?

JEC: Quero disputar a eleição. Além de um projeto político que se ancora na atuação que tive como presidente da Câmara Municipal de São Paulo, na qual extinguimos o voto secreto e atingimos uma economia considerável para os cofres públicos, e dois mandatos na Câmara dos Deputados em que tomei parte de importantes discussões – como a Reforma do Poder Judiciário e o fim do voto secreto em todas as instâncias legislativas, e atuando em órgãos importantes como a CCJC (Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania) –, creio reunir disposição e apoio político para enfrentar o desafio de administrar a Prefeitura de São Paulo. A definição do candidato do PT para essa tarefa irá ocorrer em um futuro próximo e coloquei meu nome. Torço por um processo de discussão que não se limite à lógica de tendências e grupos tradicionais do PT e que não resulte em fissuras do partido.

DS: Ao final de 2006, o sr. fazia uma previsão sombria, de que a atual legislatura no Congresso Nacional poderia ser ainda pior que a anterior caso não fosse feita a reforma política. A expectativa é essa mesmo?

JEC: Acho fundamental que a Reforma Política esteja na ordem do dia das discussões. No último movimento relacionado a esse assunto, em julho, a reforma foi mais uma vez deixada de lado, já que não houve consenso entre as lideranças partidárias. É preciso agora que o Congresso reúna os cacos que restaram de uma possibilidade de aprovação de uma reforma efetiva, para que a sociedade brasileira tenha algum ganho neste processo. E para isso é fundamental que a sociedade faça pressão sobre o Parlamento, já que infelizmente uma parte dos deputados e senadores que exercem hoje mandato não se pauta por o que é melhor para o país e a sociedade, e prefere se ater a questões pessoais. Dessa forma, obviamente não existem avanços.

DS: A não aprovação do sistema fechado de lista partidária inviabiliza o financiamento público de campanha? Porquê?

JEC: Não. São situações distintas, propostas para uma reforma política, defendidas por uns e rejeitadas por outros. O financiamento público de campanha é uma necessidade real da política brasileira. Limitando a interferência que o poder privado tem sobre o processo eleitoral e conferindo maior transparência a este processo – frisando que a democracia tem o seu custo – acabaria por exemplo a possibilidade de uma doação ser feita visando vantagem após as eleições. É ilusão, por exemplo. achar que o dinheiro que financia certas campanhas não é aplicado visando um retorno.

DS: O governo pode ter sua imagem arranhada se continuar insistindo na defesa contundente do senador Renan Calheiros?

JEC: Não acredito que esteja ocorrendo uma defesa contundente do senador por parte do governo. Há empenho de parlamentares em defendê-lo, mas não se trata de um ato coordenado pelo governo. De qualquer modo, a imagem do governo do presidente Lula, na minha avaliação, não está comprometida. Trata-se de uma questão referente ao Senado, que como todos os assuntos de importância na política o Governo acompanha, mas não toma parte, já que aplica os princípios republicanos de separação entre os três poderes.

DS: As denúncias envolvendo lideranças do PMDB (Calheiros e Joaquim Roriz) podem inviabilizar a aliança eleitoral que o PT sonha construir com o partido?

JEC: Acredito que a relação institucional entre os dois partidos segue em bons termos. No que se refere a alianças eleitorais, é prematuro fazer especulações nesse sentido, já que é um processo que ainda está por vir e o Governo terá pela frente outros três anos e meio.

DS: Em recente entrevista, ao jornalista Boris Casoy, o sr. disse que na última eleição participou apenas de dois debates com os eleitores durante a campanha eleitoral. Os sucessivos escândalos envolvendo parlamentares fizeram o brasileiro se desinteressar da política?

JEC: Há sem dúvida um clima de descontentamento com a política por parte da sociedade, que precisa e pode ser revertido. E um importante meio para isso é que seja levada adiante uma efetiva reforma política, que fortaleça a democracia e a participação da sociedade.

DS: A ética ainda consegue se sobrepor ao dinheiro na política?

JEC: A ética deveria ser condição essencial para o exercício de qualquer mandato eletivo. E temos hoje na política bons exemplos de conduta, que se pautam pela ética e pela capacidade de realização.

DS: Há alguns meses o sr. esteve em Botucatu, conversando com os filiados do PT. Que impressão o sr. levou daquele encontro?

JEC: Tenho uma excelente avaliação da administração do prefeito Mario Ielo. Botucatu trata-se de uma cidade importante no Interior de São Paulo e importante para o PT e o prefeito vem demonstrando competência, visão de governante voltado à população.

DS: O sr. foi acionado em algum momento de seu mandato pelo prefeito Mário Ielo para viabilizar alguma obra ou recurso que pudesse ajudar Botucatu? Qual?

JEC: Temos uma parceria efetiva com o prefeito Ielo, que não fica restrita à viabilização de recursos para obras físicas.

DS: Qual o melhor nome dentro do PT para a sucessão de Mário Ielo?

JEC: Acredito que o nome para disputar a sucessão do prefeito Ielo se definirá com naturalidade, o PT terá maturidade para escolher o nome mais adequado.

DS:  O sr. sonha um dia disputar a eleição para governador ou até mesmo presidente da República?

JEC: No momento tenho a atenção voltada para o mandato de deputado federal, para o qual recebi mais de 120 mil votos. Procuro representar o eleitor me envolvendo em questões importantes do Congresso Nacional. Tenho a intenção de disputar as eleições municipais do ano que vem, mas não se trata de algo que interfere na minha atividade como parlamentar. Setores importantes do partido têm estimulado minha pré-candidatura, e essa não é uma intenção meramente pessoal. E no que se refere à carreira política, não tenho nesse momento objetivos delineados para projetos posteriores.

Diário da Serra - Botucatu/SP
01/08/2007

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