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Novo secretário-geral do partido afirma que implantará código para punir desvios de conduta de militantes
Derrotado nas eleições internas para a presidência nacional do PT, o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP) assumiu a secretaria geral do partido depois de um acordo com o antigo Campo Majoritário. Cardozo diz que implantará, até julho, um código de ética para regular as ações dos petistas, e que sua prioridade é repactuar as forças internas.
Em entrevista ao GLOBO, ele considera que a crise do cartão corporativo não é de ética, nem envolve diretamente seu partido ou o governo Lula. Para ele, trata-se de um caso isolado, por causa da deficiência de mecanismos de controle público. Para as alianças eleitorais, o novo secretário-geral se mostra aberto: Partido é partido, governo é governo .
O GLOBO: O governo enfrenta mais uma crise ética, com o caso dos cartões corporativos. O que o senhor acha disso como deputado e como secretário-geral do PT?
JOSÉ EDUARDO CARDOZO: Não creio que o governo enfrente uma crise ética na questão dos cartões corporativos.O Estado brasileiro, em diferentes unidades da federação (União e alguns estados), enfrenta uma crise pontual decorrente de mecanismos deficientes de controle das despesas públicas. Acredito, como deputado e como secretáriogeral, que todas as irregularidades devem ser investigadas e punidas com o máximo rigor. Defendo que novos mecanismos sejam introduzidos para que isso não mais se repita. Mas também é necessário denunciar que nossos adversários utilizam todas as suas baterias para transformar essa questão numa crise política, visando a atingir a imagem do governo Lula.
De que forma?
CARDOZO: Temos que colocar as coisas às claras. Essa não é uma crise de um governo petista, gerada por petistas. É uma crise administrativa, que atinge órgãos públicos federais e estaduais, por força da adoção de modelos que, em decorrência do seu uso descontrolado, podem propiciar abusos e situações de improbidade praticadas por agentes públicos em geral.
Quais as suas prioridades como secretário-geral do PT?
CARDOZO: O PT terá no próximo período grandes desafios. Disputaremos nossa primeira eleição presidencial sem ter Lula como candidato. Teremos, já este ano, eleições municipais de importância fundamental para o nosso partido. É fundamental que a nova direção nacional consiga garantir a unidade do partido na execução das diretrizes traçadas pelo nosso último congresso.
É preciso fazer as mudanças necessárias para que as instâncias partidárias sejam revitalizadas e a nossa militância estimulada, reabrindose o diálogo e a interação com importantes setores da sociedade, dos quais nos distanciamos no último período em decorrência da crise que vivemos. Das nossas propostas, creio que a mais importante que conseguiremos bancar será a criação do Código de Ética, que passará a regular a conduta de todos os petistas e reafirmará a concepção de que o PT é um partido que tem a ética e a visão republicana da política como um pressuposto da sua ação.
De que resolverá ao PT ter um código de ética? Após o mensalão, já houve outro escândalo, em 2006, com o dossiê dos aloprados.
CARDOZO: É evidente que nenhuma lei e nenhum código de ética, em si mesmos, têm o poder de evitar a prática de condutas que os contrariem. Contudo, não é porque uma pessoa possa vir a matar que devemos ter por inútil a regra do Código Penal que afirma que o homicídio é um crime. O PT é um partido político que, como todos os outros, é formado por homens e mulheres de carne e osso, sujeitos a desvios de conduta. É possível, como infelizmente aconteceu no passado, que alguns desses militantes ou dirigentes possam agir de forma contrária àquilo que o nosso partido defende no seu conjunto. O estabelecimento de regras claras, e de sanções rigorosas, será de fundamental importância para que o PT continue a reafirmar e exigir com rigor de todos os seus militantes o compromisso com a ética.
Como o senhor define essa nova direção partidária?
CARDOZO: Há grandes tarefas pela frente: repactuar internamente as nossas forças políticas; garantir a nossa unidade, revitalizando as nossas instâncias partidárias; restabelecer o diálogo com a sociedade e com os movimentos sociais; reafirmar nosso compro misso com a ética na política; combater as ações dos setores cons ervadores que buscam pe rma nent emente inviabilizar o governo Lula e impor a sua agenda neoliberal ao país. Temos totais condições políticas de conseguir atender a esses objetivos. Aliás, estamos formando uma direção partidária que, para o futuro do nosso partido, não pode correr o risco de errar.
A prioridade será recuperar o PT e a ética ou vencer as eleições de 2008 e 2010?
CARDOZO: A ética deve ser um pressuposto e um fim para atuação do nosso partido. É impossível termos uma ação partidária voltada à transformação e à construção de políticas de combate à exclusão social e de afirmação plena da cidadania, sem que tenhamos a dimensão ética da política permeando a conduta dos nossos governantes, parlamentares, dirigentes e militantes. Não existe, portanto, nenhuma contradição entre a afirmação ética da nossa ação e a busca de vitórias eleitorais nas eleições de 2008 e 2010. Não podemos confundir a política de alianças afirmada pelo nosso partido com a base de su st ent aç ão política, voltada à govern abilidade, de quaisquer de nossos governos.
Partido é partido, e governo é governo. Enquanto partido, defendemos um eixo prioritário de intervenção na formação de uma frente de esquerda, ou seja, com as forças políticas com que temos maior afinamento ideológico e político. Isso não implica que nossos governos respeitadas premissas éticas e republicanas, e a não descaracterização de seus respectivos planos de governo , na busca da governabilidade, não possam ter na sua base de sustentação política um espectro de forças mais amplo.
Soraya Aggege
O Globo
17/02/2008 |