O debate sobre a reforma do Judiciário promete esquentar a partir
desta semana, com a convocação extraordinária do Congresso.
O tema, que está na Casa há mais de 12 anos, foi incluído
na pauta da Câmara e Senado, um sinal inequívoco de que o governo
quer mudanças no Poder Judiciário.
O presidente da Câmara, deputado João Paulo Cunha (PT-SP), criou
uma comissão especial para analisar os 13 projetos relacionados ao tema
hoje em tramitação na Casa. O presidente desta comissão de
Reforma do Judiciário é o deputado José Eduardo Cardozo(foto),
do PT de São Paulo.
A seguir, em entrevista ao Política para Políticos, Cardozo fala,
entre outras coisas, sobre seu trabalho nesta comissão e sua atuação
como integrante de outra importante e polêmica comissão, a da Reforma
Política.
------------------------------------------------------------------
- O Sr. poderia nos apresentar uma síntese dos projetos de reforma do Judiciário
que estão na Câmara?
A reforma do Judiciário é uma questão que vem sendo discutida
há décadas. Há um consenso que o Poder Judiciário
não pode permanecer como está. A morosidade das decisões
do Judiciário traz inúmeras injustiças e a impossibilidade
de que direitos violados sejam reparados. Falta transparência e controle
da sociedade sobre o Poder Judiciário. Há irracionalidade na tramitação
de processos e certos privilégios que a sociedade tem por inaceitáveis.
Tudo isso implica na necessidade de reforma. Mas não apenas uma reforma
no corpo orgânico, mas no modelo de prestação jurisdicional
do Estado. Então temos que falar em mudança também de aspectos
básicos e essenciais da Justiça, onde estão envolvidos o
Ministério Público, a Defensoria Pública e a Advocacia.
Pessoalmente, defendo o controle externo, o fortalecimento das defensorias públicas,
mudanças no sistema recursal, o fim do nepotismo nos tribunais, a afirmação
das garantias dos magistrados que sejam realmente indispensáveis para o
exercício das suas funções e a supressão de privilégios
corporativos inaceitáveis como, por exemplo, as férias de 60 dias
com um terço a mais, entre outros pontos.
As mudanças estão sendo discutidas intensamente pela Comissão
de Reforma do Judiciário na Câmara dos Deputados, da qual sou presidente,
e deverá chegar ao fim de 2004 com grandes avanços. Mas, para isso,
deveremos estar articulados com a sociedade. Será preciso agilizar a tramitação
da proposta de emenda constitucional que está parada no Senado e que traz
alguns pontos importantes como o controle externo, que já foi aprovado
pela Câmara dos Deputados. Em breve o PT deverá apresentar uma proposta
consolidada com proposições que o partido considera fundamentais
para o aprimoramento do Judiciário.
- Estes projetos "atacariam" o problema da corrupção no
Judiciário?
Tenho absoluta convicção de que uma reforma do Judiciário
só sai do papel se houver uma relação natural das propostas
que estão colocadas no plano Legislativo e a sociedade. Há um forte
espírito corporativo, e não só do Judiciário, mas
também das demais funções essenciais da Justiça, que
muitas vezes inibe uma discussão aberta e transparente sobre o tema.
Existem algumas questões já têm consenso, como o controle
externo, a ser exercido com a criação do Conselho Superior da Magistratura.
Entre as atribuições desse Conselho estaria a punição
para os eventuais desvios de conduta. Não queremos que os juízes
sejam submetidos a qualquer tipo de ingerência sobre as sentenças
que proferem. O juiz tem que ter total liberdade quando julga. O controle é
para questões administrativas, financeiras e disciplinares. Por isso, a
importância das Ouvidorias para captar denúncias e reclamações
e encaminhá-las ao órgão de controle externo.
Também com o novo Estatuto da Magistratura poderemos ter novas regras que
permitam penalidades mais rígidas. O Estatuto deverá ser encaminhado
pelo Supremo Tribunal Federal até fevereiro. O presidente do STF, ministro
Maurício Corrêa, assumiu conosco este compromisso.
- E a questão da morosidade do Judiciário?
Uma das maiores preocupações da Comissão Especial de Reforma
do Judiciário é com a demora na prestação jurisdicional,
com processos simples que ficam tramitando durante décadas nos tribunais.
Nas diversas audiências públicas que a Comissão promoveu,
este tema foi muito debatido.
Em parte, esta distorção se deve à possibilidade do atual
sistema processual de interposição de recursos apenas para retardar
a solução definitiva da causa. Teremos de modificar a legislação
de forma a inibir esse tipo de conduta e agilizar o cumprimento das sentenças
judiciais. Outras medidas importantes são aquelas relativas à modernização
da estrutura do Poder Judiciário. A informatização na tramitação
dos processos devem ter especial atenção nesse processo.
- Sabemos que o aumento da violência é um processo complexo e deve
ser atacado de todos os lados. Qual seria a contribuição do Judiciário
neste sentido?
O fortalecimento institucional do Judiciário, com as mudanças que
estamos propondo, certamente vai alcançar também as varas criminais.
A informatização dos tribunais, por exemplo, vai ter um reflexo
positivo em todo o Judiciário.
- Na sua opinião, o que deve contemplar essa Reforma Política que
começa a ser discutida em todas as esferas da sociedade?
A Comissão Especial de Reforma Política, da qual faço parte,
aprovou em novembro uma proposta que traz grandes avanços e profundas mudanças
que vão do fortalecimento dos partidos ao financiamento público
das campanhas eleitorais, onde os candidatos ficarão proibidos de receber
dinheiro de particulares ou de empresas.
O anteprojeto de Reforma Política prevê a implantação
das listas fechadas, em que o leitor passará a eleger seu candidato dentre
os nomes da lista de candidatos escolhidos em votações nas convenções
partidárias e o fim das coligações nas eleições
proporcionais. Além da criação das chamadas federações
partidárias, às quais os partidos deverão permanecer filiados
por no mínimo três anos.
- Vivemos uma era de profundas mudanças em todos os setores, e com o Estado
não é diferente. Não está na hora de começarmos
a debater as funções do Estado nesta nova era? Por onde iniciar
essa discussão?
Os mecanismos de controle de Estado, pelo menos da forma como estão colocados
no Brasil, são extremamente ineficientes. São deficientes em relação
ao volume de atividades que o Estado moderno desenvolve. E isso acontece por uma
série de razões. Temos a história de um Estado autoritário,
da cultura política que nega em larga medida a cidadania.
Embora nós tenhamos mecanismos criados por lei, nem sempre estes saem do
papel e são efetivados. Muitas vezes são mecanismos burocratizados,
que precisam ser discutidos e melhorados. No fundo, falta ao Estado brasileiro
um mecanismo de controle. A ausência de um controle eficiente do Estado
é a principal causa do descrédito da população em
relação aos agentes públicos, parlamentares, magistrados,
ao próprio Executivo.
Nós temos uma péssima tradição de negação
de ética na política. O resultado é o enorme descrédito
dos agentes públicos junto à opinião pública, que
atualmente são vistos como culpados até prova em contrário
da sua inocência. Acredito que essa situação só poderá
ser revertida se conseguirmos construir um Estado mais transparente e eficiente
nos mecanismos de controle que ele deve ter.
|